Bagropsis reinhardti, popularmente conhecido como bagre ou mandi-bagre, é uma espécie de peixe siluriforme da família dos pimelodídeos (Pimelodidae) e do gênero Bagropsis. É endêmica da bacia do rio São Francisco, em Minas Gerais. Descrita por Christian Frederik Lütken em 1874, é a espécie-tipo do gênero Bagropsis, um grupo de bagres neotropicais atualmente incluído na tribo dos bagropsinos (Bagropsini), juntamente com B. atrobrunneus e B. paranaensis. Durante grande parte de sua história científica permaneceu pouco conhecida, sendo representada por poucos exemplares em coleções zoológicas e frequentemente confundida com espécies semelhantes, circunstância que dificultou o entendimento de sua distribuição e de suas relações evolutivas. A espécie possui corpo alongado, cabeça deprimida, olhos proporcionalmente grandes e longos barbilhões maxilares, podendo atingir cerca de 34,5 centímetros de comprimento padrão. Ocorre em tributários das porções alta e média da bacia do São Francisco, incluindo as sub-bacias dos rios das Velhas, Paracatu, Paraopeba, Carinhanha e Pará. Habita principalmente rios de correnteza com fundo rochoso ou cascalhoso, estando associada a ambientes lóticos de cabeceira e tributários montanos bem conservados. Apesar da distribuição mais ampla atualmente reconhecida, continua sendo considerada uma espécie rara e pouco registrada em inventários ictiofaunísticos. Historicamente, B. reinhardti foi considerada vulnerável em avaliações nacionais e estaduais devido ao conhecimento limitado sobre sua distribuição e às ameaças decorrentes da degradação ambiental da bacia do rio das Velhas, incluindo poluição, mineração, assoreamento e construção de barragens. Entretanto, a descoberta de novas populações em diferentes sub-bacias do São Francisco levou à reavaliação de seu estado de conservação. Atualmente, a espécie é classificada como menos preocupante (LC) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), embora permaneçam necessárias pesquisas adicionais sobre sua biologia, abundância e distribuição efetiva.

Etimologia O nome popular bagre, de acordo com Joan Coromines, deriva do latim pagrus (originário do grego πάργος, párgos), "pargo", através do moçárabe, que originou no árabe da Península Ibérica e do Norte da África "bâgar". Sua primeira ocorrência remonta de 1553. Mandi, por sua vez, deriva do tupi mandi'i, termo empregado para designar peixes de rio ou de água doce. A palavra apresenta diversas variantes históricas registradas na literatura, incluindo mandu e nhundi. Seus primeiros registros documentados remontam ao período colonial, aparecendo nas formas mandaig (c. 1594), mandeii (1618) e mandis (1806). O nome genérico Bagropsis deriva de bagre, combinado ao grego ops (ὄψ), "aparência" ou "aspecto", em referência à semelhança geral da espécie com outros bagres. O epíteto específico reinhardti homenageia o zoólogo dinamarquês Johannes Theodor Reinhardt (1816–1882), diretor do Museu de História Natural de Copenhague e importante estudioso da fauna brasileira.

Taxonomia e sistemática Bagropsis reinhardti é uma espécie de siluriforme da família dos pimelodídeos, originalmente descrita por Christian Frederik Lütken em 1874 como espécie-tipo do gênero Bagropsis. Durante grande parte de sua história taxonômica, a espécie permaneceu pouco conhecida, sendo representada por reduzido número de exemplares preservados em coleções zoológicas e apresentando posição sistemática incerta dentro da família dos pimelodídeos. Estudos filogenéticos anteriores posicionaram Bagropsis dentro do chamado grupo Pimelodus, uma linhagem de pimelodídeos incluída no clado Calophysus–Pimelodus. Nesse contexto, o gênero era considerado aparentado a Pimelodus, Iheringichthys, Parapimelodus, Platysilurus, Platystomatichys, Bergiaria, Cheirocerus e Duopalatinus. Lundberg e Parisi (2002) observaram que diversos gêneros tradicionalmente reconhecidos entre os pimelodídeos não haviam sido originalmente delimitados com base em hipóteses filogenéticas explícitas, razão pela qual as relações internas do grupo permaneciam parcialmente incertas. Os autores destacaram Bagropsis como um dos membros do grupo Pimelodus que compartilham caracteres derivados da região craniana e das vértebras anteriores, embora apresente combinações morfológicas próprias que sustentam seu reconhecimento como gênero distinto. Entre os integrantes desse grupo, Bagropsis distingue-se por possuir cabeça relativamente grande e olhos proporcionalmente maiores que os observados em gêneros como Propimelodus, compartilhando essa condição com diversos representantes de Pimelodus, Iheringichthys, Bergiaria e Parapimelodus. Posteriormente, estudos morfológicos conduzidos por Rocha (2012) indicaram afinidades entre Bagropsis reinhardti, Pimelodus atrobrunneus e P. paranaensis. Com base nesses resultados, Rocha & Littmann (2025) propuseram uma nova classificação para os pimelodídeos, reconhecendo a tribo dos bagropsinos dentro da subfamília dos pimelodíneos (Pimelodinae) e transferindo P. atrobrunneus e P. paranaensis para o gênero Bagropsis. Dessa forma, o gênero deixou de ser monotípico, passando a compreender três espécies reconhecidas: B. reinhardti, B. atrobrunneus e B. paranaensis. Rocha et al. (2025) verificaram ainda que diversos exemplares depositados em coleções científicas haviam sido identificados incorretamente como Duopalatinus emarginatus, espécie externamente semelhante e também endêmica da bacia do rio São Francisco. A reavaliação desse material permitiu esclarecer caracteres diagnósticos importantes, redefinir os limites taxonômicos do gênero e ampliar significativamente o conhecimento sobre a morfologia e a distribuição de B. reinhardti.

Diagnóstico Bagropsis reinhardti distingue-se de B. paranaensis pela presença de dentes no metapterigoide, ausentes nesta última espécie. Pode ser diferenciada de B. atrobrunneus pela presença de pequenas manchas escuras concentradas principalmente na porção anterodorsal do corpo, enquanto B. atrobrunneus apresenta coloração marrom uniforme, sem manchas ou listras corporais. Em relação à espécie morfologicamente mais semelhante da bacia do São Francisco, Duopalatinus emarginatus, diferencia-se pelo menor tamanho das placas dentárias vomerinas, que permanecem amplamente separadas entre si; pelo processo cleitral posterior curto; pelo maior número de vértebras (47–49 contra 45–46); pelo maior número de raios procorrentes na nadadeira caudal; e pelos olhos proporcionalmente maiores.

Morfologia Os maiores exemplares registrados atingem 34,5 centímetros de comprimento padrão e cerca de 653 gramas de massa corporal. Bagropsis reinhardti apresenta corpo alongado, com perfil dorsal levemente convexo desde o focinho até a origem da nadadeira dorsal, tornando-se quase reto entre as nadadeiras dorsal e adiposa e ligeiramente côncavo na região do pedúnculo caudal. A cabeça é deprimida e possui ossos cranianos bem desenvolvidos, ornamentados por sulcos rasos e cristas reticuladas. Os olhos são relativamente grandes e posicionados dorsalmente, constituindo uma das características mais marcantes da espécie. A boca é ampla, com a mandíbula superior projetando-se além da inferior. Possui dentes viliformes distribuídos nas placas dentárias pré-maxilar, dentária, vomerina e metapterigoide. As placas de dentes vomerinos são pequenas e bem separadas entre si, enquanto a presença de dentes no metapterigoide constitui uma das características diagnósticas da espécie. Os barbilhões são longos e estreitos, sendo o maxilar suficientemente desenvolvido para ultrapassar a base da nadadeira caudal.A nadadeira dorsal possui oito lepidotríquios, incluindo um espinho dorsal reto e delgado provido de pequenas denticulações posteriores. A nadadeira adiposa é curta e convexa, enquanto a caudal é profundamente furcada, com lobos curtos e largos. A espécie possui entre 47 e 49 vértebras, 12 costelas e de 22 a 24 rastros branquiais no primeiro arco branquial. Não foi observado dimorfismo sexual nos exemplares examinados. Em exemplares preservados, a coloração geral é marrom, mais escura no dorso, com pequenas manchas escuras pouco evidentes distribuídas principalmente na região anterodorsal do corpo. As nadadeiras são hialinas. Em vida, apresenta coloração cinza-escura dorsalmente e mais clara na região ventral.

Distribuição e habitat Bagropsis reinhardti é endêmica do Brasil, ocorrendo na bacia do São Francisco, no estado de Minas Gerais. A espécie foi originalmente descrita a partir de exemplares coletados por Johannes Theodor Reinhardt entre 1850 e 1856 na região de Lagoa Santa, na sub-bacia do rio das Velhas. Embora Rosa & Menezes (1996) já tenham destacado sua ocorrência em sub-bacias do rio das Velhas, Alves & Pompeu (2005) consideraram-na localmente extinta na calha principal desse rio. Atualmente, a espécie é conhecida em tributários da porção inferior do rio das Velhas, além do Preto, afluente do Paracatu, do Paraopeba, do Carinhanha e do Pará. Registros recentes ampliaram consideravelmente sua área conhecida de distribuição, demonstrando que a espécie é mais amplamente distribuída na bacia do que se supunha anteriormente. A espécie ocorre em áreas dos domínios da Mata Atlântica e do Cerrado, estando associada às sub-bacias do Alto e Médio São Francisco. Os novos registros confirmaram sua persistência em afluentes da bacia e contribuíram para uma melhor compreensão de sua distribuição geográfica. Bagropsis reinhardti possui hábitos bentônicos, permanecendo associada ao substrato de rios de correnteza, especialmente em trechos com fundo composto por rochas e cascalhos. Apesar da ampla distribuição atualmente reconhecida, a espécie é considerada rara e pouco frequentemente registrada em inventários ictiofaunísticos.

Ecologia Bagropsis reinhardti é um peixe de água doce com hábitos demersais, associado a ambientes tropicais. Trata-se de uma espécie bentônica, encontrada principalmente em trechos de rios de correnteza com fundo composto por rochas e cascalhos, onde permanece associada ao substrato. Estudos realizados na bacia do rio das Velhas indicam que sua ocorrência está associada principalmente a tributários de maior declividade, caracterizados por correntezas rápidas e substratos predominantemente rochosos. Os locais onde a espécie foi registrada apresentavam boas condições ambientais e elevada qualidade da água. Com base nesses padrões, foi sugerido que B. reinhardti esteja associada principalmente a ambientes lóticos de cabeceira e tributários montanos. Levantamentos sistemáticos realizados desde 1999 registraram a espécie apenas em tributários, enquanto Duopalatinus emarginatus foi encontrado principalmente na calha principal do rio das Velhas. As duas espécies não foram registradas em ambientes de várzea, e a ocorrência simultânea de ambas parece rara, tendo sido observada apenas em um grande tributário da bacia. Os habitats ocupados por D. emarginatus diferem daqueles utilizados por B. reinhardti, sendo geralmente caracterizados por menor velocidade de corrente e substratos arenosos ou lodosos. Apesar de sua ampla distribuição conhecida na bacia do São Francisco, a espécie é considerada rara e pouco frequentemente registrada em inventários ictiofaunísticos. Os indivíduos podem atingir cerca de 31,4 centímetros de comprimento corporal.

Conservação A espécie é considerada inofensiva para seres humanos e não consta como avaliada nos anexos da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES) nem da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS). Em Minas Gerais, Bagropsis reinhardti figurou na Lista das Espécies Presumivelmente Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais, publicada pela Fundação Biodiversitas em 2007. Posteriormente, a espécie foi classificada como vulnerável (VU) pelo critério B1ab(iii) na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção (Portaria n.o 444) de 2014. A avaliação que fundamentou essa categorização considerou que a espécie possuía extensão de ocorrência inferior a 20 mil quilômetros quadrados, era raramente registrada e estava sujeita a ameaças persistentes associadas à poluição, mineração e barramentos, fatores responsáveis pelo declínio continuado da qualidade do habitat em duas ou possivelmente três localidades conhecidas. Em meados da década de 2000, B. reinhardti chegou a ser considerada extinta em parte de sua área de ocorrência no rio das Velhas, interpretação posteriormente revista após a obtenção de novos registros em tributários da bacia. A mesma categoria foi mantida no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicado em 2018. A inclusão de Bagropsis reinhardti entre as espécies ameaçadas também resultou em restrições à sua exploração pesqueira por meio da Portaria MMA n.o 445/2014, que proibiu sua captura e comercialização em território nacional. Em junho de 2017, a Portaria Interministerial n.o 217 suspendeu temporariamente parte dos efeitos dessa regulamentação para determinadas espécies. Entretanto, com o término da vigência dessa suspensão em 15 de junho de 2018, a proibição voltou a produzir efeitos para a maior parte dos táxons contemplados pela Portaria 445, incluindo B. reinhardti, que figurava entre os peixes continentais cuja captura permanecia vedada naquele período. A espécie foi avaliada globalmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como menos preocupante (LC), em avaliação concluída em 2018 e publicada em 2022. Embora seja raramente registrada, sua distribuição relativamente ampla na bacia do São Francisco e a ausência de evidências de declínio populacional acentuado indicam que não enfrenta risco significativo de extinção no curto prazo. Novos registros obtidos em diferentes sub-bacias do São Francisco contribuíram para uma reavaliação de seu estado de conservação, e a espécie deixou de constar entre os táxons ameaçados na lista nacional publicada em 2022. Em consonância com essa interpretação, a espécie foi considerada pouco preocupante (LC) na lista da fauna com ocorrência no estado de Goiás publicada em 2023. As principais ameaças identificadas estão associadas à degradação ambiental da bacia do rio das Velhas, incluindo poluição hídrica, atividades minerárias e a construção de barramentos que promovem a fragmentação dos habitats aquáticos. A descarga de esgoto oriunda da Região Metropolitana de Belo Horizonte e a ressuspensão de matéria orgânica acumulada durante períodos chuvosos podem provocar redução nos níveis de oxigênio dissolvido e episódios de mortalidade de peixes. A região do rio das Velhas, localidade-tipo da espécie, também foi historicamente afetada por assoreamento, remoção da vegetação ripária e expansão urbana desordenada, fatores que contribuíram para a extinção local de diversas espécies de peixes registradas na bacia. Alguns tributários preservam melhores condições ambientais e podem funcionar como refúgios para populações da espécie. Apesar desses impactos, não há indícios de que as populações estejam sujeitas a declínios capazes de justificar uma categoria de ameaça mais elevada. Não há registros de utilização comercial da espécie. A tendência populacional é desconhecida. Bagropsis reinhardti integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna Aquática da Bacia do Rio São Francisco (PAN São Francisco), coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Tanto a UICN quanto o SALVE destacam a necessidade de pesquisas adicionais sobre sua biologia, tamanho populacional e distribuição efetiva. Até o momento, não existem registros confirmados da espécie em unidades de conservação. Rocha et al. (2025) ressaltaram ainda que a correta identificação de Bagropsis reinhardti e de espécies semelhantes, especialmente Duopalatinus emarginatus, é fundamental para delimitar com precisão sua distribuição atual e permitir avaliações mais robustas de seu estado de conservação.

Notas [a] ^ O critério B1ab(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é aplicado a táxons com extensão de ocorrência extremamente reduzida e que atendem a condições adicionais relacionadas à fragmentação ou ao número limitado de localidades conhecidas. O subcritério a indica que a espécie está severamente fragmentada ou ocorre em poucas localidades, enquanto o subcritério b(iii) aponta a existência de um declínio contínuo, observado, inferido ou projetado, na área, extensão ou qualidade do habitat. Em conjunto, esse critério reflete o elevado risco de extinção decorrente da distribuição geográfica restrita e da deterioração progressiva dos ambientes ocupados. O critério B2ab(iii) baseia-se na área de ocupação da espécie, em vez de sua extensão de ocorrência. Ele é aplicado quando a área efetivamente ocupada é muito pequena e a espécie também apresenta fragmentação acentuada ou número reduzido de localidades (subcritério a), associado a um declínio contínuo na área, extensão ou qualidade do habitat (subcritério b(iii)). Assim, o critério reconhece que espécies restritas a áreas diminutas e sujeitas à degradação ambiental possuem maior vulnerabilidade a eventos locais e, consequentemente, maior probabilidade de extinção.

Referências

Ligações externas Documentos sobre Bagropsis reinhardti na Biodiversity Heritage Library Observações de Bagropsis reinhardti no iNaturalist